Convite

Repito aqui um post que escrevi ontem no facebook, depois de participar do protesto contra o aumento da tarifa.

Queridos amigos, um post enorme mas espero que alguns leiam:

Participei do protesto hoje, saindo do teatro Municipal. Caminhamos até o começo da Consolação, cantando, a bateria tocando, levantando cartazes, chamando as pessoas dos prédios. No começo da Consolação, a polícia bloqueou a rua de repente e começou a nos atacar. Com as bombas estourando, tentamos conter a correria, manter a calma, gritando “Sem violência!”. Tentamos voltar, já que a polícia tinha bloqueado nosso caminho pro outro lado. Mas ela também tinha se posicionado no caminho por onde viemos, e jogava bombas por lá. Tentamos subir pela roosevelt, e ela nos cercou. (Foi notável a velocidade com que eles se posicionaram. Estavam bem planejados pra isso).
Ficamos espremidos entre as bombas e um canteiro alto, e quando consegui subir nele percebi que estávamos a um passo do buraco do túnel, sem nenhuma grade. Ninguém caiu lá, ao correr das bombas, graças a calma e ajuda mútua dos manifestantes. Esse era o único caminho, estreito, por onde consegui sair do cerco, com dois amigos. No fim dele, a polícia jogou uma bomba de gás bem na nossa frente. Durante todo o tempo, as pessoas se acalmavam mutuamente, se seguravam, compartilhavam vinagre, entoavam “Sem violência”, quando o gás permitia. Quando consegui sair da praça e me juntar a um grupo maior de pessoas, ainda sem saber de que lado a polícia e as bombas poderiam vir, não conseguia respirar direito. Mas isso não é o pior. O gás lacrimogênio faz os olhos arderem, mas a covardia, a brutalidade absurda, e a certeza de que depois a mídia vai tentar convencer todos que somos vândalos, me fez soluçar de ódio por meio quarteirão. É que eu sou sentimental, sabe como é.
Chegando na Augusta, continuamos por entre os carros, sabendo que no meio dos carros (ou seja, dos cidadãos de bem, que sabem usar a cidade do jeito permitido) não haveria bombas. De lá, fui embora pra casa de uma amiga. Talvez devesse ter continuado, mas estava tremendo inteira, não sei dizer o quanto por raiva ou medo.
Junto o meu relato a tantos outros que tenho visto e compartilhado aqui, por um motivo simples:
Saí de lá tremendo, mas mais determinada do que nunca que irei na próxima manifestação. A questão não é só o aumento. Ela sempre foi mais que isso, claro – era a discussão de prioridades no planejamento urbano, do direito da população à um transporte público de qualidade. Mas agora é mais ainda. É a defesa o direito da população de se manifestar e protestar sem ser atacada covardemente por uma horda de policiais – e seguir sendo atacada, por ruas e ruas e ruas. É mostrar nossa indignação com esse comportamento absurdo da polícia e dos governantes que a incitam, é acima de tudo mostrar que não vamos nos deixar calar, que vamos continuar brigando pela cidade que queremos.
Então, se você se chocou com esses e outros relatos, se você também acha que isso é um absurdo, junte-se a nós. Quanto mais gente – e gente mais diversa – participar, quanto mais gente clamar por paz quando eles jogarem as bombas de “efeito moral”, mais difícil será fingir que somos apenas um bando de baderneiros, que somos só os estudantes vagabundos, que somos massa de manobra de X ou Y grupo político. Já está ficando mais difícil, com mais e mais imagens mostrando os ataques.
Agora é preciso manter a coisa em movimento. Vamos?

Adiciono mais alguns links:
Muitos relatos, não só de manifestantes, mas também transeuntes atacados pela polícia, testemunhas em prédios vizinhos, pessoas em prontos socorros, etc, estão circulando por diversos caminhos. Nesse site aqui você pode ver muitos. Nesse aqui tem mais outros, fotos e vídeos (da polícia atacando pequenos grupos de manifestantes que gritam “sem violência”, jornalistas, transeuntes, de gente sendo presa por portar vinagre (?!), de um policial quebrando a própria viatura (?!!) pra inventar os tais vândalos). É preciso estômago forte  – mais pros relatos do que pras fotos, na minha opinião. O gás lacrimogênio já passou, creio eu, mas ao ver mais alguns deles agora, já é a quinta vez hoje em que eu tenho que segurar o choro. E sei que o que passei foi só o começo do que continuou por horas.

Mesmo eu, que participei e tenho acompanhado desde ontem notícias de amigos que estiveram lá, não paro de me surpreender com os textos que leio – pela variedade de pessoas que os escreveram, pela violência que eles narram, mas também pelas reflexões, pela solidariedade, pelas formas diversas em que eles ecoam meu sentimento de que não podemos nos deixar calar.

Leiam, compartilhem, comentem com quem puderem, por favor.

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brasileira em tóquio!
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