Belo Monte continua lá

Pessoal, vocês tão sabendo que as obras de Belo Monte pararam? Finalmente um juiz disse o óbvio: que as obras estavam sendo feitas de forma ilegal, por não terem consultado devidamente as comunidades locais. Agora, claro, já estão reabrindo a discussão pra recomeçar as obras, mas o fato de elas terem parado mostra que não é, de forma alguma, uma briga perdida.

Não sei se estou dizendo o óbvio pra quem está no Brasil recebendo jornal e tudo o mais, mas depois de todo aquele barulho de quando os globais fizeram o vídeo, não tenho visto mais tanta gente falar sobre isso. E esse não é um caso nem encerrado e nem perdido, precisamos continuar lutando pelo que queremos. Então se você tiver um tempinho (suponho que sim, se você está lendo meu glorioso blog onde eu falo de comer milho com hashi e tal) e quiser dar uma ajuda, pode mandar um email pro Ministro Ayres Britto  que vai decidir sobre a reabertura das obras, no audienciaspresidencia@stf.jus.br . Tem um exemplo de mensagem aqui (que vale a pena ler de qualquer maneira, é um resumão dos problemas) e outro aqui.

[EDIT: fizeram um esquema pra mandar direto, se preferirem. Ele deve decidir entre hoje e amanhã. E obviamente já recebeu visitas de muita gente do governo dizendo que já é “fato consumado” e as obras não podem parar, então todo o apoio no sentido contrário é válido. O que eu acho no geral está dito abaixo, e nos links tem mais. Mas aproveito pra adicionar que talvez seja hora da gente se opôr a essa coisa de “fato consumado”. “Ah, foi feito inconstitucionalmente,  os estudos não são completos, as licenças são ‘parciais’, mas fazer o quê, política é assim mesmo, Brasil é assim mesmo”. O primeiro passo pra parar de ser é a gente parar de aceitar isso como fato consumado.

Pros mais animados, vai ter uma vigília em frente ao TRF em São Paulo em apoio ao ministro. Aquela coisa de gente na rua que é muito bonito no estrangeiro mas em casa é um bandihippie vagabundo, e tal]

Bom, sobre Belo Monte, repito mais ou menos o que já disse antes, porque a discussão sempre vai por aí: o problema não pode ser resumido simplesmente como “ah, dureza, né, mas a energia é necessária, eu por exemplo estou aqui de luz acesa com meu computador e minha geladeira e minha tevê, e as fábricas, sem energia não dá”. Que sem energia não tem “desenvolvimento”. Primeiro porque a quantidade de energia que realmente vai ser gerada não é tão alta quanto o anunciado, a não ser que se construa mais barragens, várias. Mas acima de tudo, porque a questão é mais complexa que isso, o buraco é mais em baixo. Ou os buracos. É preciso pensar como é abordada a questão energética no país, quais informações são divulgadas, quais são os interesses envolvidos – inclusive mineradoras, empreiteiras, etc, que determinam isso. E pensar que nos cálculos da obra, que definem que essa é uma alternativa mais viável do que outras, não são contabilizados os custos sócio-ambientais. Não são só custos de desmatamento, destruição de biodiversidade e de culturas locais (não que isso não seja já suficiente, mas bizarramente esses parecem ser aspectos fáceis de descartar em nome do crescimento do país), mas custos como o crescimento caótico de cidades, com aumento de violência e prostituição, falta de hospitais e infraestrutura suficiente, o aumento de doenças por causa da água parada, etc. Coisas que vão voltar a pesar, logo, sobre o tal desenvolvimento em nome do qual se está agindo.

Quanto mais eu leio/assisto sobre o assunto, mas me impressiono. Com a gravidade do que está sendo feito e planejado, com o descaso absoluto com as populações locais, com a incongruência entre a imagem exportada de Brasil-natureza-cultura-sustentável e essa realidade. Acima de tudo é chocante e triste ver o quanto o pensamento e as relações de poder dos tempos de colônia continuam. Como continuarmos nos esforçando pra produzir matéria prima barata pro resto do mundo, jogando os custos disso pra cima de índios, ribeirinhos, população de baixa renda em geral. Belo Monte é só uma parte de algo muito maior, mas sua implementação seria um marco, o fim de uma resistência de décadas, e abriria espaço pra acelerar o processo todo.

Mas na verdade, antes ainda de tudo isso, independente de concordarmos ou não com a idéia da barragem, o ponto é que a maneira como esse projeto está sendo encaminhado é algo que não deveríamos aceitar, como cidadãos. O governo está impondo sua decisão, sem cumprir as etapas exigidas por lei e atropelando quem tentar se opôr. As populações locais, que deveriam ser consultadas, com poder de veto, não foram. Funcionários do Ibama que emitiram pareceres contrários foram demitidos (!!) até que alguém concordasse. As medidas condicionantes que já deveriam estar sendo implementadas não estão. Só esses desrespeitos à lei já deveriam ser o suficiente pra interromper as obras.

Bom, não vou ficar me alongando em explicações e argumentações pois muita gente está fazendo isso melhor que eu. Escrevo só pra pra relembrar que isso está acontecendo e passar uns links pra quem se interessar. O professor Idelber Avelar (aquele da mensagem pro ministro acima, um sujeito muito legal cujas opiniões têm me interessado em vários assuntos) organizou duas listas excelentes de bibliografia sobre o assunto, parte 1 e parte 2. Está tudo separado por temas e com pequenos resumos, então só a leitura da lista em si já dá uma idéia das várias coisas em jogo. Também dá pra focar nos assuntos em que se tenha mais dúvidas ou interesse.

Tem também o filme feito com apoio do público pelo Catarse, o Belo Monte – anúncio de uma guerra. Gostei bastante e acho que vale a pena ver (apesar de ter algumas críticas e ter achado o fim meio arrastado). São entrevistas com muitas pessoas, interessante não só pela quantidade de informações mas também pra lembrar como tem gente de todo tipo por aí.

[Edit 2: um pessoal muito eficiente organizou um debate sobre o assunto no sábado, que pode ser visto aqui. O debate começa nos 20 minutos, o som melhorperto dos 28. ]

Enfim, é isso. Veja o que acha. Se puder, escreva pro ministro. Se souber de outras formas de manifestação eu posto depois. Sei que não parece a coisa mais efetiva que você fará na sua vida, mas é melhor do que ficar olhando a obra ser feita e achando que não tem jeito. E como já disse, o fato de ter parado uma vez mostra que ainda tem jeito, sim.

Uma das coisas que mais ouço por aqui,  ao falar que sou do Brasil (além de samba, futebol e, ironicamente, amazônia) é  “Ah, o Brasil tá bem, o Brasil tá crescendo, né!”. E sempre sinto a mesma pontada, dou o mesmo sorriso meio amarelo. Sim, tá crescendo, mas o problema é pra onde, pra quem, por quê. Pra mim Belo Monte é um símbolo desse momento, uma oportunidade de pensar como queremos nosso desenvolvimento e de mostrar que a direção não pode simplesmente ser imposta.

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brasileira em tóquio!
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