Memória

Eu tenho uma memória notável pra decorar letra de música ruim, poemas, números de telefone, e coisas do tipo “em que episódio de Friends eu aprendi expressão ‘I’m over you'”, ou como foi em A História Sem Fim que eu li a palavra “inexoravelmente” pela primeira vez.
Ou seja, pra coisas perfeitamente inúteis, já que os números de telefone estão todos no celular, os poemas e músicas quase todos na internet, e uma vez tendo aprendido o que é inexorável, eu passaria bastante bem sem lembrar onde foi.

Por outro lado, sou absolutamente incapaz de guardar noções gerais sobre o que aprendo (ontem estava considerando seriamente pedir que me enviassem o livro de história geral que usei no colegial), enredos de livros (não me peça pra contar o que acontece em A História Sem Fim), ou relações corretas entre autor e obra. Quando mencionam Oswald de Andrade lembro que ele tinha um carro com cinzeiro (obrigada, mamãe), mas depois fico confusa sobre quem escreveu tal coisa, Oswald ou Mario.

Ou seja, não tenho memória pra nada do que seria útil nos meus estudos. Esqueço não só o que aprendi em aulas da faculdade, mas o fato de que algum dia na vida eu ESTIVE naquela aula. A Paula, que estudou comigo na história e tem uma memória desgraçada, comenta casualmente sobre “aquele capítulo do livro tal, que a gente fez um seminário” e, passo a passo, descubro que não lembro do capítulo, nem do livro, nem do autor, nem de jamais ter entrado nessa aula. Não lembrava nem do nome dela na grade horária. Com certo esforço, consigo lembrar que o professor, cujo nome se perdeu pra sempre, era um japonês simpático que parecia meu professor de química do colégio.

Todos os livros teóricos que leio preciso comprar, ou xerocar inteiro, pra rabiscar tudo com grifos multicoloridos, resumos e comentários (“hmm, sei não, hein?”, “hahahha”, “Rita&Autor BFF”) e encher de post-it. Assim posso procurar as informações mais tarde, quando lembrar vagamente que algo ali talvez tivesse a ver com o assunto em questão.

Ou seja, não sei porque é que eu me meti na academia ao invés de ir ser secretária bilingüe, profissão onde meu T.O.C., minha formação em Letras e minha capacidade de decorar telefones seriam todos muitos bem aproveitados.

Mas toda essa digressão foi porque agora, enquanto lia um desses xerox e grifava tudo em muitas cores, me apareceu como um exemplo a tradução de “Juvenil History in seven tricks”, Max und Moritz, de Wilhelm Busch.

Eram 4 linhas em inglês, que diziam basicamente “eles sentiram o cheiro da comida, olharam pela chaminé, e viram o frango sendo cozido”.

E então, algo ressoou nas profundezas da minha mente e me ocorreu que isso era de um livro que meu avô tinha, com um título como “As aventuras de Juca e beltrano”, uma história totalmente tenebrosa de dois meninos muito malcomportados que aprontam com toda gente até que um belo dia eles caem dentro de um moinho e VIRAM FARINHA. Fim.
(Num clássico exemplo da pedagogia alemã, do tipo “era uma vez um menininho que não queria cortar as unhas e então veio um homem enorme e cortou todos os dedinhos dele fora”).

Achei que era maluquice minha, mas uma breve busca na wikipédia e de fato, esse é o título em inglês do tal livro, “Juca e Chico – História de Dois Meninos em Sete Travessuras”, cuja tradução é do Olavo Bilac, quem diria.

Ou seja. Eu não lembro o que li na semana passada, mas reconheço um livro que não vejo desde os sete anos por 4 linhas e um título vagamente parecido. Maravilha.

Talvez seja só a falta de dedos cortados e crianças virando farinha na literatura de teoria da tradução. Nada como uma boa lição de moral germânica pra gravar as coisas no cérebro da gente.

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brasileira em tóquio!
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2 Responses to Memória

  1. avô e avó com saudades says:

    Eu definitivamente não me entendo com blogs e que tais, de modo que não sei se estou pondo este “comment” no lugar certo. Mas como também sei que de algum modo ele chegará a você aqui ponho: gostei da sua memória funcionar para coisas da sua infância, quando você ainda era “a” neta. Obrigado de me contar. Abraçaudades, Lólio

  2. Marta says:

    Rita, você precisa disponibilizar esses seus maravilhosos textos em algum lugar em que não sejamos só eu e o vovô a lê-los!! Quando você for secretária bilígue, por favor tenha como hobbie a escrita criativa, para garantir esse seu legado à humanidade que, de modo geral, pensa, sente e escreve de maneira bem mais tosca que você!

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