Daqui a pouco

A gente sempre acha que o ponto limite das coisas ainda está por vir, né? Como um Grande Momento de ruptura, que será claro, delimitado e talvez anunciado.

Meu pai comentou isso uma vez sobre o trânsito de São Paulo: como as pessoas sempre falam que É, tá foda! Se continuar assim daqui a pouco vai ficar complicado!
Isso porque tem gente que todos os dias, ao sair do trabalho, passa 40 minutos numa fila pra sair do estacionamento da Firma e conseguir finalmente entrar na avenida onde, certamente, vai pegar mais trânsito. Todos os dias, vejam bem.
Também lembro de uma matéria sobre gente da Berrini que costumava chegar duas ou três horas antes do expediente pra conseguir estacionar perto do trabalho. Aí ficavam dormindo dentro do carro. Muito razoável. (Infelizmente essa solução tão prática foi atrapalhada porque os cidadãos dormindo dentro do automóvel pra proteger a vaga eram presa fácil e começaram a ser assaltados.)
Tem tudo isso, mas não se enganem, essa ainda não é uma situação limite. Se continuar assim é que a coisa vai ficar complicada.

Aí hoje um amigo comentou que se Mussolini renascesse em São Paulo seria eleito e muito bem aprovado.
E até eu, com todo o otimismo polianístico que me é natural, tenho tido essa mesma impressão. De que a coisa está ficando realmente requisita. Passando daquele nível de absurdos que a gente já se habituou a ignorar e seguir nossas vidinhas. Impressão, enfim, de que daqui a pouco vai dar merda. E aí como faz? Me dei conta de que sempre tive a vaga impressão, ingênua, de que eu saberia o que fazer caso estivesse num desses momentos. E de que o faria, claro.
Esse amigo comentou que a gente vai precisar fundar uma resistência – daqui a pouco. E foi isso que me fez ficar pensando, concluir uma série de coisas óbvias e vir aqui discorrer sobre elas pra vocês.

Porque o foda da vida, em oposição aos livros de história, em que a gente já organizou, estabeleceu turning points, marcou datas pra decorar e passar na prova, é que ela vai indo, vai indo, e quando você vê a coisa já ficou complicada e você tá lá no meio dela achando que ela ainda está só quase, e já perdeu o timing praqueles feitos heróicos que se imaginava capaz.

Isso porque é muito mais fácil pensar em como agir depois que a coisa já passou, claro. Tipo quando você tem 13 anos e um colega te tira na sala de aula e você pensa a resposta perfeita dois dias depois. Também porque é muito mais fácil pensar em feitos heróicos quando você não está pensando também em todas essas coisas cotidianas, desde as importantes pra sobrevivência até os vídeos de cachorro que você quer mostrar pros colegas.
Mas além de tudo, acho que é porque a gente fica esperando algum grande limite pra admitir que não é mais “daqui a pouco”. Algum grande sinal. (Tinha um texto do Caio Fernando Abreu em que ele falava algo assim sobre a morte, vou ver se acho) Só que esses limites geralmente são aqueles que, ao ler nos livros de história, a gente pensa como caralhos o pessoal chegou nessa situação achando razoável.

Enfim. Por hoje é isso, porque já comecei a dormir sobre o celular. Como eu disse, tudo meio óbvio, né. Apesar de a obviedade não ser uma solução.

Mas tenho esse problema de esquecer minhas próprias reflexões e depois seguir novamente as mesmas linhas de raciocínio e chegar as mesmas conclusões óbvias, sempre com sentimentos epifânicos. Então me acostumei a escrever o que penso, pra ler quando tiver esquecido e evitar a fadiga neuronal. A anotação de hoje fica compartilhada.

Advertisements

About Elefante Imaginário

brasileira em tóquio!
This entry was posted in Uncategorized. Bookmark the permalink.

4 Responses to Daqui a pouco

  1. Marconi says:

    Curti muito o texto pré-apocalíptico. 🙂

  2. Ih, Rita Kohl, tanta distância e a mesma reflexão. Fui ver Melancolia há meses e estou melancólica até hoje…E se a hora de ir tudo pro saco for agora ( como tanta gente diz?)? Fui pras cataratas do iguaçu:dava quase para ouvir ainda o barulho do dia em que rachou tudo, rio desceu, morro subiu e aquele enormidade foi criada. Deve ter sido UM DIA !! Não milhões de anos… cráááááááááá e aconteceu. Andes sobem, o mar vira amazônia. Não é de pouquinho, é de repente… Tive um amigo geólogo que um dia rolou uma pedrona em cima dele , destas que a gente acha que estará ali para sempre , de tão grande e pesada…
    Isso é só natureza, sem falar dos outros absurdos como os que você cita. Sabe o que tenho feito? Imaginar que estou no futuro ( avá! só pra variar…) vendo o que seriam as barbaridades do presente ( como hoje a gente fala de sanguessugas como terapia ou da inquisição) : café da manhã de hotel; especulação financeira ( campeã de barbárie) etc.
    De toda maneira, vale sempre viver a vida o máximo possível, curtir cada minuto, fazer declarações de amor, fazer bobagens. Beijos, beijos, beijos

  3. Felipe says:

    Meu, é tudo questão de ir lá e fazer o ato heróico. O difícil mesmo é escolher qual ato heróico tentar fazer, o resto é ‘bola de neve’.

  4. ciola says:

    eu tive essa fase de tentar mostrar pras pessoas que o apocalípse tava rolando, assim, sem nenhum tom profético, só tipo: olha lá pela janela que você vai ver! …as pessoas meio que olhavam, diziam ok, e iam ver e mostrar os vídeos de cachorro de novo, enfim, fui obrigado a capitular. agora. se você está procurando A Resistência, você tem que saber que ela existe, eu posso te apresentar o pessoal que faz parte dela, não que você já não conheça 80% desse pessoal, mas falta ainda somar. bjs!

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s