Sobre a PM na USP e mais um pouco

Eu não queria muito escrever sobre isso.

Mas conto, constrangidamente, o principal motivo que me faz escrever:

Eu sabia da polêmica da PM na USP, antes dos acontecimentos recentes, mas só de longe. Li um pouco a respeito, conversei com alguns amigos, mas o assunto foi ficando pra trás. E não acho que essa distância seja só pelo fato de eu estar do outro lado do mundo. Mesmo em São Paulo, mesmo do lado da USP, a grande maioria das pessoas também está muito longe – não porque são alienados, insensíveis, reacionários ou seja o que for, mas por que a vida é muito rápida em envolver a gente nos problemas cotidianos, sem deixar muito espaço pro resto.

Enfim, estava eu aqui, a cabeça e as horas cheias de de japonês, estudos, de bobagens e histórias sobre privadas. Um belo dia acordei e vi uma notícia, postada por uma amiga. Era uma notícia da Folha de S. Paulo, sobre o confronto de estudantes com a PM, por causa de 3 alunos que portavam maconha.

E aqui está a parte constrangedora. Eu li e pensei Ah, meu saco, agora vão começar uma briga porque a molecada quer fumar maconha em paz? Fuma em casa, porra.

Era isso que estava noticiado. Eu não confio na Folha, já vi pessoalmente a incongruência absurda entre que eles noticiam o que acontece dentro da USP. Não li querendo acreditar em tudo o que me diziam. Mas o fato é que quando você está longe, e lê uma notícia por cima, como quase todo mundo lê as notícias, não costuma lembrar de todos os outros fatores que ela deixou de fora.

Ninguém mencionava qual era o comportamento da PM em relação aos alunos, com ou sem maconha. Se a presença dela tinha efetivamente aumentado a segurança nas áreas que precisam de segurança. Ou num plano maior, a maneira como se decidiu que a PM estaria ali, a maneira como se decidiu que este reitor estaria ali, nem como ele tem se comportado em relação aos alunos.

Ainda tenho vários amigos dentro da USP ou muito próximos a ela e logo me lembrei, ou fui lembrada, de todas essas questões. Essa primeira impressão durou pouco, mas foi chocante quando percebi o que tinha me acontecido. Chocante ver o quanto somos suscetíveis ao que a notícia conta, quando não damos um pouco mais de reflexão ao assunto. E pouca gente que não está realmente dentro do problema faz isso.

Um Datena ou um Reinaldo Azevedo são tão absurdos nos seus discursos que é difícil se deixar levar pelo que eles dizem (quero crer que meus caros leitores concordam comigo nesse ponto). Mas as notícias, no seu tom “imparcial” e seu formato que finge dar todas as informações necessárias sobre um assunto, fazem a gente achar que sabe o que está acontecendo e do que está falando.

É perigoso.

Então farei o que eu posso, a distância: divulgar, mesmo que seja modestamente e pra uns poucos leitores, outras opiniões sobre o assunto que me parecem mais esclarecidas do que as da Folha de S. Paulo (essa é particularmente chocante) e cia. Espero que alguns de vocês tenham paciência de ler (principalmente os links lá embaixo, mais interessantes do que meus próprios comentários).

* * *

Antes de mais nada, queria deixar claro que a oposição aqui não é simplesmente “PM tentando proteger mocinhas de estupradores” versus “molecadinha à toa que quer fumar um em paz”.

A discussão fica sempre nessa coisa tacanha, em que se assume que os estudantes são vagabundos drogados, que a polícia é segurança, e que nenhuma lei pode ser discutida. Mas o caso dos 3 estudantes não foi o motivo de todo o confronto, foi o estopim de tensões que já existiam, em relação a como o governo e a reitoria têm tratado a universidade.

Ou seja, as discussões vão – deveriam ir – muito além da maconha, dos alunos que vestem roupas da GAP ou não, que deveriam ter apanhado mais na infância ou não. Esse esclarecimento feito por alunos da ECA  resume bem os assuntos em pauta.

(Edit: gosto muito da análise nesse texto linkado, mas tem uma coisa que não gosto: o título “Esclarecendo”. Não é o que eu quero fazer aqui. Não acho que tudo o que se precisa fazer seja contar “a verdade”. O que quero fazer é falar sobre as questões em jogo. É mostrar outros pontos de vista, outras narrativas do que tem acontecido. E, principalmente, outras refllexões a respeito de tudo isso. )

Sobre a relação de PM e segurança, é difícil conseguir uma análise confiável sobre o número de crimes antes e depois da entrada da polícia. (A Folha falou em 92%, tendo como fonte, muito imparcial, a própria PM. Mas examinando um período mais amplo, dá pra ver que a oscilação é normal, já que maio costuma ser um pico e depois disso vem o período das férias, com pouco movimento. Também é difícil contabilizar porque nem todas as ocorrências são registradas no mesmo lugar). Mas, independentemente do que ela esteja fazendo em outras áreas, o ponto é que revistar alunos na entrada da FFLCH, uma das áreas mais movimentadas da USP, simplesmente porque eles tem “perfil de marginal” não vai impedir estupros ou assaltos. Ou seja, mesmo que você seja a favor da presença na PM no campus pra garantir a segurança, não é simples afirmar que é isso o que ela está fazendo, e muito menos que é a isso que os alunos estão se opondo.

O movimento estudantil é cheio de problemas. Tem muita politicagem, tem grupos pouco abertos ao diálogo e tem muita gente maluca. Participar das assembléias pode ser quase tão estressante quanto ler a Veja. Mas isso não é motivo pra deslegitimar todo e qualquer esforço por parte do estudantes de se questionar o jeito como as coisas estão e de se manifestar. Porque as coisas não estão bem. (Alguém acha, de verdade, sinceramente, que estão?)  Eu acho que esse é justamente um motivo pra discutir esses esforços, criticar o que não funciona, pensar novas possilidades, tentar trazer a participação de pessoas novas. Defender que o questionamento dos estudantes é válido não significa concordar com todas as suas atitudes nem com todas as suas reinvindicações.

(No quesito coisas-estando-bem, sem nem entrar em grandes questões ideológicas: sempre penso, ao ver alunos de outras unidades xingando o movimento, se eles achariam a mesma coisa caso não coubessem dentro da suas salas de aula. Não falo em salas com ar condicionado, com microfone, com cadeiras estofadas. Nem mesmo com cadeiras combinando. Só uma sala em que você caiba.)

Mas não digo isso só da USP. A questão de como a autoridade lida com a população em São Paulo, e de como faz uso da polícia pra isso, vai muito além das salas de aula e da reitoria, é claro. Ela tem que ser discutida. (Repito: alguém acha, de verdade, sinceramente, que está tudo indo bem?)

Sei de muita gente que gostaria de se colocar sobre a USP ou sobre outros casos, que está indignada, cansada de ouvir histórias de violência e ver notícias distorcidas, mas que não fala sobre isso pelo desânimo de achar que não vai fazer diferença. Eu também. Tenho a sensação desesperançosa de que as pessoas determinadas a chamar os alunos de maconheiros vagabundos continuarão a fazer isso exatamente do mesmo jeito, ignorando qualquer outro argumento que esteja no caminho. Mas como não adianta desanimar de vez, posto isso na esperança de que possa gerar reflexão. É um espaço modesto e são muito poucos leitores. Mas quem sabe… talvez alguém que até agora não tinha pensado tanto sobre o assunto se interesse em saber mais. Talvez essa pessoa fale sobre isso com mais alguém. Talvez a única versão da história não precise ser a de uma mídia que diz que os estudantes ousam questionar o status quo porque seus cérebros não estão prontos.

Abaixo, alguns links de gente que falou melhor que eu:

Pablo Ortellado: A cortina de fumaça da segurança na USP

Vladimir Safatle: Abaixo da lei

Vladimir Safatle: Zero e Um (texto curto e bom sobre o binarismo em discussões políticas)

Guerra de ilusões e fantasmas na USP (relato muito interessante sobre o dia da reintegração de posse, sobre a política dentro da delegacia e dentro do movimento estudantil)

André Forastieri: O choque na USP e a militarização de São Paulo

USP – O que a mídia não viu e o debate inteligente que perdemos 

Ocupação patética, reação tenebrosa (gostei muito desse, como análise não só desse caso mas da relação da população com protestos em geral)

Marcelo Rubens Paiva: posse de maconha não é crime  (já que a discussão sempre volta pra isso, vamos checar a tal da lei)

E por último, uma linda anedota sobre ser coerente com as leis

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One Response to Sobre a PM na USP e mais um pouco

  1. Debora says:

    Olá! Descobri sua postagem por meio do Maurício, achei perfeito. É claro que não dá pra se basear na mídia de povão pra arregimentar uma opinião de verdade, ainda + pra alguem como eu, q simplesmente baniu a TV da realidade. É… Tudo é sempre muito + do que parece. Basta olhar pra ver. Parabéns pelo texto, os links tbm são o máximo! Um abraço, Débora

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