Pizza

Acho muito irritante as pessoas que vêm pro Japão e ficam escrevendo falando sobre ele com aquele tom weird-japan, tipo olha como essa gente é bizarra e come coisas bizarras e escreve placa em inglês errado.

Primeiro porque muitas vezes são umas coisas meio bizarras mesmo pra quem é daqui. Umas “modas” que pegaram entre 4 pessoas e ninguém nunca ouviu falar, um único japonês maluco que casou com o gameboy dele, etc. Segundo porque muitas das coisas não são necessariamente bizarras, elas são só diferentes do que o visitante tá acostumado, e acho que falta uma certa perspectiva e capacidade de olhar pra si mesmo. E por fim porque, antes de criticar a incompetência dos outros em escrever em inglês, tenta escrever em japonês, mané! Ou pelo menos não cola de ponta-cabeça a porra do adesivo de kanji no seu carro.

Bom, tudo isso pra explicar que geralmente sou contra isso de ficar apontando coisas bizarras. Principalmente quando são coisas tipicamente ocidentais, tipo haha-tentaram-copiar-e-ficou-bizarro. MAS, que ninguém é de ferro, e hoje abro uma exceção pra falar sobre as pizzas.

Veja bem, você vem pra casa de bicicleta, se sentindo muito saudável, passa na quitanda, compra umas verdurinhas pra jantar salada, se sentindo realmente muito saudável, chega em casa cheia de auto-satisfação, e aí entregaram um folheto de pizzaria, cheio de fotos.

Isso abala a pessoa. Não é fácil.

Aí você olha o folheto, os closes no queijo derretido, numa luta com a sua consciência, olha os preços… E aí olha os sabores. E aí você fica muito confuso.

Vou só contar a respeito, sem muitas análises. Não porque eu não queira impôr minha opinião pros meus caros leitores, mas só porque, como disse, é muito confuso pra mim. Começo dizendo que um dos sabores populares de pizza, que sempre vejo por aí em bares e restaurantes junto com a marguerita, é batata. Batata com maionese. Reflitam.

Nesse folheto, a maionese é um grande sucesso, tem em metade. Pimentão, o único legume que eu não gosto, também tem de monte. E sempre no fim, só pra eu estar achando que essa parece boa e aí bam, pimentão. Bacon também tem em quase todas, e sempre adjetivado – são uns 4 tipos diferentes.

Tem uma que chama “Light”, e o primeiro ingrediente é salame peperoni. O segundo é lingüiça. Tem uma de frango teriaki, com alguinhas em cima. Uma das recomendadas pra crianças é a Hawaiian Delight, com crushed pinapple e presunto cru.

Tem 3 tipos de massa pra escolher: super fina e crocante, com queijo até a borda, ou com a borda gorda (achei até a fotinho):

tem normal?

Elas também têm a indicação de qual o molho usado: tomato sauce; salsa sauce. Até aí acho que compreendi. Mas depois curry sauce. Mayonnaise salse. Curry e tomato sauce na mesma pizza. Curry sauce junto com special creamy sauce. Não compreendi mais nada.

O mais confuso é que a média nesse folheto é duns 8 ingredientes por pizza, o que faz com que você mude de opinião muitas vezes ao longo da leitura. Leitura que não é fácil, digo logo, porque a letra é pequena e quase todas são palavras de origem estrangeira em katakana, como poteto, ou tomato, ou appuruwuddosumookudobeekon.

Então você vai lá, compreendendo cada palavrinha. “Joy’s Special”: Presunto cru – legal. Aspargos frescos – bom. Linguiça moída – desnecessário, mas ok. Cebola. Queijo parmesão. Appuruwuddosumookudobeekon – pera, quê? Milho -humm, sei não. Maionese -ah, mano! E assim vai. Todo esse esforço e você já esqueceu do que tinha na anterior.

Na verdade, agora que eu jantei minha salada com gohan e não estou mais esfomeada sofrendo sobre o folheto, ele tá parecendo mais razoável, mas aí eu já tinha começado a escrever. E de qualquer jeito, isso me lembrou de muitas coisas que eu sempre penso em comentar e não comento. Por exemplo, sobre como esse é o país dos molhos. Ou como essa coisa de várias carnes juntas é muito comum, não só nas pizzas. Sou só eu que acho estranho, ou é uma coisa brasileira mesmo, ter só uma carne de cada vez? Ou sobre esse entusiasmo pela quantidade de ingredientes nas coisas – tipo saladas com 20 ingredientes, em que vem UM único grão de fava só pra contar.  Ou sobre a infinita quantidade de informações em cada cm² nos folhetos ou sites.

Não vou entrar em detalhes sobre tudo isso, na esperança de que meus caros leitores resistam até o fim do post, mas se alguém quiser saber eu conto mais outra hora. Afinal, são temas tão emocionantes!

E pra não fazer feio na linha weird-japan, deixo um comercial da pizzaria em questão:

E já aviso que ele não é um caso isolado. Tem muitos assim mesmo. É maravilhoso.

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About Elefante Imaginário

brasileira em tóquio!
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