entre starbucks e cafés de bairro

Estou há um bom tempo na luta com um romance do Mishima de 600 páginas que tenho que ler pra apresentar um seminário. Devo admitir que não estava dando tudo de mim na luta, até que obviamente chegamos a um pouco, eu e o romance, em que ainda que eu dê tudo de mim e mais um pouco, provavelmente não consigo terminar ele tão rápido quanto deveria. Também não é muito animador o fato de que meu grupo de seminário, depois de muitas inclinações de cabeça e tsshhh, decidiu fazer cópias de TODA a bibliografia para TODOS os integrantes. E assim eu devo ter algo próximo de 1000 páginas de análises do Mishima e desse romance, para as quais eu olho e rio. Pra não chorar, né.

Enfim. Agora que a água bateu na bunda, passei o dia sentada lendo a parada. Eventualmente, na terceira vez em que comecei a cochilar em no meio das frases, resolvi sair e ler num café, porque a presença de pessoas tende a me manter mais acordada.

Tem um café a um quarteirão daqui, que eu achava por algum motivo que era um Doutor (uma rede de cafés com muitos por toda a cidade), mas chegando lá vi que era um café pequeno e vazio. Quase sempre, prefiro lojinhas pequenas a supermercados, e restaurantinhos simpáticos a family restaurants. Mas pra ficar estudando, sempre acho que vai ser melhor um Doutor, ou Starbucks, ou aquele outro que imita o logo do starbucks, enfim, um desses ubíquos e impessoais. Não gosto dos atendentes sempre iguais, não gosto dos copos de plástico, não gosto de muita coisa neles (fora o cookie de macadamia e chocolate branco do starbucks que eu gosto muitíssimo, minha gente, como eu gosto). Mas ainda assim, acho bom a impessoalidade, porque assim você pode pedir um único café, ficar lá pra sempre lendo, e ninguém dá a mínima.

Mas na falta de outra opção, entrei nesse café. Tinha apenas um garçom meio colegial muito empertigado e atento, e um homem com cara de dono do negócio, elegante e gentil atrás do balcão e mostrando grande interesse pela conversa da única cliente. E que conversa, minha gente. Peguei só partes, mas aparentemente ela estava discutindo a sua vida amorosa. Uma senhora com os cabelos grisalhos bastante descabelados, uma roupa meio desconexa, chinelos, contando da sua vida amorosa com o entusiasmo de uma debutante e o que me pareceram muito mais detalhes do que o necessário. Eu atrás dela tentando não rir, e ele ali, impassível, fino.

O garçonzinho parecia estar dedicado a se aprimorar na mesma arte, e também mantinha a pose. O café era feito numa parada muito legal de potes de vidro com fogo embaixo que o sujeito fica mexendo (que certamente tem um nome, então explico melhor quando descobrir) e era delicioso. Pedi um de avelã, que foi trazido com pompa pelo aprendiz de finesse, coberto por uma fartura de chantilly de qualidade.

Admito que era difícil se concentrar enquanto a mulher falava, mas ela logo foi embora. Chegaram outros clientes, vários conhecidos, todos recebidos com a mesma simpatia. Passei horas lá, eu e meu café, e não só ninguém se abalou, como garçom trouxe mais água algumas vezes.

Então tá aí: starbucks 0 X 1 café do bairro.

Só me chateia que esses cafés costumam ter uma divisão fumantes/ não-fumantes bem simbólica, e agora estou meio fedida. Mas voltarei, pra estudar tomando bons cafés, ficar olhando os potes de vidro misteriosos e a atenção dada a cada dupla de senhorinhas que entra.

(Também vou ignorar o fato de que provavelmente esse também faz parte de alguma franquia, talvez menos mundial, mas ainda assim com suas dezenas de lojas em Tóquio. Não sei bem como, mas isso sempre acontece com o que eu acho que é um lugarzinho caseiro e simpático. Mas vamos manter a ilusão)

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brasileira em tóquio!
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